
PIANCÓ — Algumas pessoas passam pela história de uma cidade sem ocupar grandes cargos ou posições de destaque. Ainda assim, deixam marcas profundas na comunidade onde viveram.
Hosmã Passos foi uma dessas pessoas.
Natural de Santana dos Garrotes, no Sertão paraibano, ele construiu parte significativa de sua vida em Piancó, município onde trabalhou, constituiu família, fez amizades e participou ativamente da vida política e comunitária.
Sua trajetória foi marcada pelo trabalho, pela família, pela fé, pela convivência com as pessoas e por uma participação política que, embora não tenha resultado em um mandato eletivo, tornou sua residência e seu nome conhecidos nos círculos políticos e sociais do município.
As raízes e o valor do trabalho
Hosmã nasceu em uma família profundamente ligada às tradições do interior da Paraíba. Era filho de Manoel Passos, poeta, negociador e rezador, e de Francisca da Conceição, dona de casa, artesã e rezadeira.
Cresceu cercado por valores que ajudariam a moldar sua personalidade: o trabalho, a fé, a solidariedade, o respeito às pessoas e a preservação das tradições populares.
Na juventude e durante a vida adulta, conheceu de perto a realidade do homem do campo. Foi agricultor antes de ingressar no serviço público municipal, onde passou a trabalhar como vigilante da Prefeitura de Piancó, função que exerceu até a aposentadoria.
Foi por meio do trabalho, portanto, que Hosmã construiu boa parte de sua história e garantiu o sustento de sua família.
Mas sua trajetória foi muito além da profissão.
Um homem que também viveu a política
Em uma época em que a política fazia parte intensamente da rotina das pequenas cidades, Hosmã participou das discussões, disputas e articulações políticas de Piancó.
Foi um dos fundadores do MDB no município e, no início da década de 1980, decidiu colocar seu nome à disposição da população como candidato a vereador. Aquela seria sua única experiência como candidato a um cargo eletivo.
Hosmã não conquistou o mandato por uma pequena diferença, mas obteve uma votação expressiva.
Anos depois, costumava recordar aquele episódio com serenidade e bom humor. Dizia que agradecia a Deus por não ter sido eleito, porque não tinha vocação para ser vereador e acreditava que poderia ajudar as pessoas de outras maneiras.
A declaração revelava muito de sua personalidade.
Para Hosmã, a política não era apenas uma disputa por cargos. Participar da comunidade, estar próximo das pessoas e ajudar quem precisava também eram formas de servir.
A casa que virou ponto de encontro
Durante determinado período, sua residência tornou-se um conhecido ponto de encontro político e social de Piancó.
Em tempos de grandes disputas partidárias, a casa de Hosmã recebeu comícios, amigos, militantes e moradores. Era um espaço onde política, amizade, conversa e confraternização se misturavam.
E, nesses encontros, também aparecia seu jeito irreverente e espontâneo.
“A casa aqui é minha; quem manda sou eu!”
Para aqueles que chegavam, também deixava uma recomendação que traduzia seu jeito de receber:
“Comam, bebam e se divirtam à vontade, mas com respeito e ordem.”
Frases simples, mas que permaneceram na memória de quem conviveu com ele e ajudam a reconstruir a personalidade de um homem conhecido pela espontaneidade, pelo bom humor e pela maneira generosa de receber as pessoas.

A família como maior patrimônio
Ao lado de Jovelina Gonçalo, agricultora, dona de casa e rezadeira, Hosmã construiu uma família durante 44 anos de convivência.
O casal teve dois filhos: Hosmá Passos, o primogênito, poeta, cordelista e agente cultural, e José Passos, que teve uma vida breve e faleceu aos três meses de idade.
A perda de um filho ainda tão pequeno marcou profundamente a família, mas Hosmã e Jovelina seguiram construindo sua história.
Anos depois, o primogênito passou a trilhar seu próprio caminho. Hosmá Passos tornou-se servidor público concursado da Prefeitura Municipal de Santana dos Garrotes, onde trabalha há cerca de 16 anos, além de desenvolver uma trajetória ligada à poesia, à literatura de cordel, à cultura popular e ao rádio.
Dessa forma, parte da história construída por Hosmã continua presente por meio do filho, que levou adiante valores familiares e transformou a cultura em uma de suas principais formas de expressão.

A despedida
No domingo, 2 de agosto, Hosmã foi conduzido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) ao Hospital Wenceslau Lopes, em Piancó.
Ele permaneceu internado até a sexta-feira. Durante o período em que esteve na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), passou por tentativas de hemodiálise e sofreu três paradas cardíacas, com duração aproximada de 20, 17 e 7 minutos.
Foram momentos de intensa luta pela vida.
A equipe médica realizou sucessivas tentativas de reanimação, mas, apesar de todos os esforços, Hosmã não resistiu. A morte ocorreu na tarde da sexta-feira.
A notícia encerrou uma vida, mas não apagou uma história construída ao longo de décadas.
O homem por trás da história
Hosmã Passos não deixou um grande patrimônio material. Seu maior patrimônio foi construído de outra maneira: por meio do trabalho, da família, das amizades, da participação comunitária e das histórias compartilhadas ao longo da vida.
Foi agricultor. Foi vigilante. Foi marido. Foi pai. Foi amigo. Foi militante político. Foi anfitrião de encontros que permaneceram na memória de quem participou.
Acima de tudo, foi um homem que acreditava que era possível contribuir com a vida das pessoas sem necessariamente ocupar um cargo público.
Sua passagem pela política foi breve nas urnas, mas sua participação na comunidade foi muito maior do que uma candidatura.
Sua casa foi palco de encontros. Seu trabalho garantiu o sustento da família. Sua convivência construiu amizades. E sua família tornou-se a continuidade de uma história iniciada em uma época em que a vida era vivida com menos recursos, mas com fortes laços de comunidade.
Um legado que permanece
A morte de Hosmã representa uma despedida para familiares e amigos, mas também marca o momento em que sua história passa a ser preservada principalmente pelas lembranças daqueles que conviveram com ele.
Em Piancó, sua memória permanecerá nas histórias contadas pelos antigos companheiros, nas lembranças dos amigos, nas memórias familiares e nos episódios políticos de uma época que já não volta.
Permanecerá, sobretudo, naqueles que vieram depois dele.
Porque uma vida não é medida apenas pelo cargo ocupado, pelo patrimônio acumulado ou pelo poder exercido.
É também medida pelas pessoas que foram tocadas, pelas amizades construídas, pela família formada, pelas portas abertas e pelas histórias deixadas para serem contadas.
Hosmã Passos partiu, mas sua história permanece.
E enquanto houver alguém para lembrar, contar e transmitir sua trajetória, ele continuará fazendo parte da história de Piancó.
Câmara de Piancó registra pesar pela morte de Hosmã Passos
A memória de Hosmã Passos da Silva também recebeu o reconhecimento institucional do Poder Legislativo de Piancó após seu falecimento.
Durante a sessão realizada nesta segunda-feira (10), a Câmara Municipal de Piancó registrou oficialmente seu pesar por meio da Moção de Pesar nº 51/2026, apresentada em homenagem póstuma a Hosmã.
De autoria do vereador Edgar Valdevino de Lima, a proposição foi formalizada pela Câmara Municipal e assinada pelo presidente da Casa, Edney Geovennaz Cabral Barboza.
A homenagem representa uma manifestação pública de respeito à trajetória e à memória de Hosmã, além de expressar solidariedade aos familiares e amigos neste momento de luto.
Ao ser incorporada aos registros oficiais do Legislativo, a Moção de Pesar também passa a representar um reconhecimento público à história de um cidadão que, por meio do trabalho, da família, da participação comunitária e da vida política, deixou sua marca na história de Piancó.








